Uma das formulações mais citadas — e mais mal compreendidas — de Jacques Lacan é esta: “não existe relação sexual.” Quem lê pela primeira vez costuma reagir com estranhamento ou ironia. Claro que existe. As pessoas se relacionam. Têm sexo. Constroem famílias.

Mas Lacan não estava falando de encontros físicos. Estava falando de algo muito mais fundamental sobre o que acontece — ou melhor, o que não acontece — quando dois seres humanos se aproximam.

O que Lacan queria dizer

Para Lacan, “relação” no sentido matemático implica proporção, complementaridade. Dois elementos que se encaixam. Como chave e fechadura.

O que ele afirma é que entre homem e mulher — ou entre qualquer dois sujeitos — não há esse encaixe. Não porque as pessoas sejam incompatíveis por acidente, mas porque cada sujeito se relaciona, fundamentalmente, com sua própria fantasia do outro. Não com o outro real.

Você não se apaixona por uma pessoa. Você se apaixona por aquilo que essa pessoa representa para você — o que ela encarna, o que ela desperta, o que você projeta nela. O outro real sempre vai decepcionar, mais cedo ou mais tarde, porque não é o outro da fantasia.

Por que isso explica tanto

Isso explica por que relacionamentos que parecem perfeitos no início inevitavelmente encontram atrito. No começo, a fantasia está intacta. O outro é investido de tudo o que você precisa que ele seja. Com o tempo, o outro real aparece — com suas contradições, suas limitações, seu desejo próprio que não coincide com o seu.

Isso explica também por que algumas pessoas repetem os mesmos padrões com parceiros diferentes. Não é azar. É que o parceiro muda, mas a fantasia que organiza a relação permanece. O trabalho analítico, nesse sentido, é justamente tocar essa fantasia.

O amor como suplência

Se não existe relação sexual no sentido de complementaridade, o amor existe como tentativa — sempre parcial, sempre imperfeita — de fazer laço com o outro apesar disso. O amor é a suplência para o que não pode ser plenamente alcançado.

Isso não é pessimismo. É, ao contrário, o que dá ao amor seu valor real. Amar alguém sabendo que nunca haverá fusão total, que o outro permanece irredutível ao que você quer que ele seja — essa é a aposta ética do amor. Não a ilusão de encontrar a alma gêmea. A decisão de construir algo com alguém que é fundamentalmente outro.

O que fazer com isso

A clínica lacaniana não resolve o impasse das relações. Ela ajuda o sujeito a reconhecer sua própria fantasia — o roteiro inconsciente que ele repete — e a se responsabilizar por ela. Não para eliminá-la, mas para ter um pouco mais de liberdade em relação a ela.

Isso é muito diferente de aprender técnicas de comunicação não violenta ou fazer testes de compatibilidade. É trabalho mais lento, mais profundo, e com resultados menos mensuráveis — mas que tocam de fato o que está em jogo.

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