Abra qualquer aplicativo de redes sociais e você encontrará, em questão de segundos, conteúdo sobre saúde mental. Infográficos sobre apego ansioso. Vídeos sobre narcisismo e gaslighting. Carrosséis com “sinais de que você está em um relacionamento tóxico”. Testes de temperamento baseados em teorias que têm décadas de questionamento acadêmico.
Esse conteúdo, na maior parte das vezes, está sendo consumido por pessoas que sofrem de verdade. E está, frequentemente, fazendo mal.
A psicologização do cotidiano
Não é novo o fenômeno de aplicar vocabulário psicológico à vida cotidiana. O que é novo é a escala, a velocidade e a superficialidade com que isso acontece nas redes sociais. Uma categoria diagnóstica complexa, desenvolvida ao longo de décadas de pesquisa clínica, é destilada em um carrossel de 10 slides e compartilhada 50 mil vezes.
O resultado não é mais conhecimento — é mais confusão com aparência de conhecimento.
O problema do autodiagnóstico
Um dos efeitos mais visíveis desse fenômeno é a explosão de autodiagnósticos. Pessoas que leram um artigo sobre TDAH se reconhecem completamente na descrição. Quem assistiu a um vídeo sobre transtorno de personalidade borderline sente que finalmente se entende. Quem leu sobre trauma complexo encontra a explicação para tudo que viveu.
Às vezes essas identificações são válidas e levam a um diagnóstico profissional útil. Mas muitas vezes funcionam de outro modo: tornam-se identidades. O rótulo substitui a pergunta. “Sou ansioso” encerra a investigação que “estou ansioso sobre o quê?” poderia abrir.
A ilusão da comunidade de diagnóstico
Nas redes, diagnósticos funcionam como tribos. Há comunidades de pessoas que se reconhecem no mesmo rótulo, que validam umas às outras, que desenvolvem uma linguagem comum. Há algo genuíno aí — o reconhecimento de que não se está sozinho pode ser valioso. Mas há também uma armadilha: o sofrimento compartilhado pode se tornar uma identidade fixada, um lugar de permanência, não de passagem.
A análise opera no sentido oposto. Ela não busca confirmar a identidade do sujeito — ela a coloca em questão.
O que fazer com tudo isso?
A crítica ao conteúdo de saúde mental nas redes não é uma defesa do elitismo clínico. É um convite à desaceleração. Antes de se identificar com um diagnóstico encontrado online, vale perguntar: o que esse rótulo me diz que eu não consigo dizer de outro jeito? O que ele me permite evitar pensar? O que ele fecha que poderia estar aberto?
Essas são perguntas que uma análise pode ajudar a responder. Um carrossel, não.
