Existe uma confusão muito comum — e muito cara — que acontece quando alguém entra em análise pela primeira vez: a suposição de que sofrimento e sintoma são a mesma coisa. Que o objetivo do tratamento é acabar com o que dói. Que o analista é uma espécie de bombeiro afetivo, chamado para apagar o fogo.

Não é assim que a psicanálise entende esses fenômenos.

O sofrimento como condição humana

Freud não inventou o sofrimento — ele apenas recusou a ideia de que a tarefa da clínica é eliminá-lo. Em uma passagem famosa, ele escreve que o objetivo da análise é transformar o sofrimento neurótico em infelicidade comum. A frase choca quem a lê pela primeira vez. Mas ela carrega uma verdade importante: o sofrimento é constituinte da vida humana. Nascemos incompletos, dependentes, mortais, habitados por desejos que jamais serão plenamente satisfeitos.

Tentar suprimir o sofrimento como tal é uma aposta contra a própria condição de existir.

O sintoma como mensagem cifrada

O sintoma, em psicanálise, é outra coisa. Ele é um arranjo específico que o sujeito constrói — geralmente sem saber — para lidar com um conflito que não consegue nomear. O sintoma fala. Ele é uma formação do inconsciente: tem estrutura de linguagem, tem endereçamento, tem história.

A pessoa que desenvolve uma fobia, uma compulsão, uma inibição repetida nos relacionamentos — não está “doente” no sentido médico banal. Ela está comunicando algo que não tem outro canal de expressão. O sintoma é, paradoxalmente, uma solução criativa para uma situação psíquica impossível.

Por que isso importa clinicamente?

Quando confundimos sofrimento com sintoma, o tratamento se torna perseguição ao desconforto. Toma-se um ansiolítico para silenciar a angústia. Pratica-se mindfulness para “não pensar”. Lê-se livros de autoajuda para substituir pensamentos negativos por positivos.

Nenhuma dessas abordagens pergunta: o que esse sintoma quer dizer? Nenhuma pergunta: a que você está respondendo quando se comporta assim?

A psicanálise não trata o sintoma como inimigo a ser destruído. Ela o toma como interlocutor. Há algo ali que quer ser ouvido. E quando esse algo finalmente encontra palavras, o sintoma frequentemente perde sua função — e, com ela, sua intensidade.

Sofrimento que merece atenção

Isso não significa que o sofrimento deva ser romantizado ou que a análise seja indiferente ao alívio. Pelo contrário. Quando o sujeito começa a se entender — quando a lógica do sintoma se torna legível para ele — algo muda. Não porque o sofrimento desapareceu, mas porque ele deixou de ser opaco. Deixou de ser uma coisa que acontece com você e passou a ser algo que você pode, em certa medida, habitar de outro modo.

Esse é o trabalho. Não a supressão, mas a transformação.

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