Existe uma indústria florescente construída sobre uma premissa simples: você está quebrado e eu sei como te consertar. Livros de autoajuda, retiros de cura, coaches de alta performance, plataformas de bem-estar — todos convergem para o mesmo ponto. A ideia de que existe um estado de saúde mental perfeita, e que basta o método certo para chegar lá.

É uma ideia sedutora. E é, também, profundamente violenta.

O que é cultura da cura?

A “cure culture” — cultura da cura — é o conjunto de práticas, discursos e mercados organizados em torno da promessa de restauração psíquica total. Ela aparece no vocabulário da “jornada de cura”, nas narrativas de transformação radical, na ideia de que o sofrimento é sempre sintoma de algo que pode — e deve — ser corrigido.

Essa cultura não é inocente. Ela produz efeitos concretos sobre como as pessoas se relacionam com sua própria experiência psíquica.

A violência de exigir a cura

Pierre Bourdieu cunhou o conceito de violência simbólica para descrever formas de dominação que se exercem sem coerção física, por meio da internalização de categorias que naturalizam a subordinação. A cure culture opera de modo semelhante: ela impõe, de forma aparentemente benevolente, a obrigação de se curar.

Quem não melhora está falhando. Quem ainda sofre não está se esforçando o suficiente. Quem resiste ao processo de “cura” é resistente — e essa resistência é interpretada como mais um sintoma a tratar, nunca como uma resposta legítima a uma exigência ilegítima.

O sujeito que não pode estar triste

Um dos efeitos mais perversos dessa cultura é a criminalização da tristeza, do luto, da ambivalência. Sentir-se confuso, melancólico, sem rumo — passa a ser um problema a resolver, não uma experiência a habitar. O vocabulário muda: não se está triste, está-se “em baixa vibração”. Não se está em luto, está-se “preso no passado”.

Essa linguagem não alivia o sofrimento. Ela o persegue.

O que a psicanálise propõe diferente

A psicanálise não prometeu cura. Freud foi explícito quanto a isso. O que ela propõe é algo mais modesto e, ao mesmo tempo, mais radical: a possibilidade de que o sujeito se relacione de outro modo com seu sofrimento. Não que ele desapareça, mas que ele faça sentido. Que a pessoa possa se responsabilizar por sua vida sem culpa e sem ilusão.

Isso exige abandonar a fantasia da cura completa. E é exatamente nesse abandono que algo de genuíno pode começar.

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