Existe um alívio peculiar em acreditar que você não tem escolha. Que sua infância determinou quem você é. Que seu trauma explica tudo. Que seus genes traçaram seu destino. O determinismo — seja ele psicológico, biológico ou sociológico — tem uma função específica para o psiquismo: ele suspende a angústia da responsabilidade.

O conforto do determinismo

Quando alguém diz “sou assim por causa do que minha mãe me fez”, está dizendo algo verdadeiro. A infância importa. O ambiente importa. O trauma importa. A psicanálise não nega isso — ela é, em grande medida, construída sobre essa premissa.

Mas existe uma diferença entre reconhecer a influência do passado e usar essa influência como destino final. O primeiro é diagnóstico. O segundo é resignação.

O determinismo reconforta porque oferece uma narrativa coerente para o sofrimento. “Eu não tenho apego seguro porque minha mãe era emocionalmente indisponível.” Isso organiza. Dá nome. Transfere a origem para fora de si. E nesse movimento, temporariamente, a culpa diminui.

O perigo da narrativa determinista

O problema começa quando a narrativa determinista se torna a resposta final — e não o ponto de partida para uma pergunta maior. Quando “isso aconteceu comigo” substitui “o que faço com o que aconteceu comigo?”

Lacan tinha uma forma precisa de articular isso: a diferença entre o sujeito como objeto da história — aquele que foi feito pelas circunstâncias — e o sujeito como agente do discurso, que pode fazer algo com essa história. A análise não apaga o passado. Ela muda a relação do sujeito com ele.

Quando o determinismo se solidifica como identidade — “sou uma pessoa ansiosa”, “sou filha de narcisista”, “tenho apego ansioso” — ele pode paradoxalmente fixar o sofrimento que pretendia explicar. A categoria diagnóstica vira a casa onde o sujeito mora, e morar tem uma lógica própria: você não quer que te tirem de lá.

Responsabilidade sem culpa

A psicanálise trabalha com um conceito que é frequentemente mal compreendido: a responsabilidade subjetiva. Não é culpa. Culpa implica julgamento moral. Responsabilidade implica autoria.

Reconhecer que você é, de alguma forma, agente do que repete em sua vida — mesmo sem ter consciência disso — não é se culpar. É recuperar uma posição de sujeito. É sair da posição de objeto passivo do próprio sofrimento.

Isso é desconfortável. Muito mais desconfortável do que dizer que a culpa é do passado. E é exatamente por isso que é necessário.

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