O mercado de bem-estar vale trilhões. Aplicativos de meditação, retiros de ayahuasca, coaches de alta performance, terapeutas “holísticos”, cristais, journaling terapêutico, dietas para o humor. A promessa central é sempre a mesma: você pode ser feliz. Você pode se sentir bem. Você pode se curar.

Freud, se estivesse vivo, reconheceria isso imediatamente. E teria muito a dizer.

O mal-estar é constitutivo

Em O Mal-Estar na Civilização (1930), Freud argumentou que o sofrimento humano não é um acidente que pode ser evitado com as ferramentas certas. É estrutural. Vem de três fontes inevitáveis: nosso próprio corpo, que adoece e envelhece; o mundo externo, que não nos obedece; e os laços com os outros, que são sempre ambivalentes.

O projeto de eliminação do sofrimento — que é exatamente o que o mercado de bem-estar vende — seria, para Freud, uma fantasia. Uma fantasia útil para quem a vende, porque nunca será completamente cumprida, gerando consumo infinito. Sempre há mais um produto, mais uma prática, mais um guru.

O princípio de prazer tem limite

Freud descreveu o princípio de prazer — a tendência do aparelho psíquico de buscar prazer e evitar desprazer. Mas ele também foi o primeiro a mostrar que esse princípio encontra seus limites na realidade e, mais fundamentalmente, na pulsão de morte.

O ser humano não apenas busca prazer. Ele repete o que dói. Ele se autossabota. Ele adoece quando finalmente consegue o que queria. O mercado de bem-estar ignora completamente esse dado clínico. Trata o humano como máquina de otimização que precisa apenas dos insumos certos.

A transferência e o guru

O que faz um coach ser seguido por milhares? O que faz um “terapeuta do Instagram” acumular seguidores em busca de cura? Freud teria uma resposta imediata: transferência. A tendência humana de projetar no outro — especialmente no outro que se apresenta como sábio e curador — os anseios não resolvidos com figuras parentais.

A diferença crucial entre o trabalho psicanalítico e a dinâmica do mercado de bem-estar é que a psicanálise trabalha a transferência. Ela a analisa. O mercado de bem-estar a explora — muitas vezes sem nenhuma consciência disso.

O que Freud não diria

Freud não diria que toda busca de bem-estar é inútil ou de má-fé. Ele reconhecia os mecanismos de defesa, a sublimação, o valor do trabalho e do amor na vida humana. Ele sabia que algum alívio é possível e necessário.

O que ele questionaria é a promessa de cura total, de felicidade permanente, de fim do sofrimento. Para Freud, o objetivo mais honesto da psicanálise era transformar o sofrimento neurótico em infelicidade comum — a infelicidade que todos nós temos direito de ter, simplesmente por ser humano.

Isso não vende bem. Mas é verdade.

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